Depois que ela teve certeza que ele tinha uma amante, sentiu instalar no peito uma fenda que lhe tirava o ar cada vez que ele chegava – e partia. E ela não soube o que fazer com tanta dor – que a jogava sobre o tapete do quarto, encolhida e muda, durante horas depois que as crianças saíam pra escola. O segredo se escondia em todos os cantos da casa, nos silêncios, nos toques e beijos breves, nas risadas: tudo parecia como sempre, mas ambos sabiam que um fantasma sentava-se todos os dias num lugar à mesa, espreitava pelas cortinas, esperava pelo impasse – dela, que mesmo sabendo permanecia à margem, e dele, que procurava o momento menos fatal para jogar-se ao outro lado do rio. Os meses se arrastaram em angústias veladas, noites mal dormidas, inquietação que parecia nunca ter fim. Até que, naquele dia, ele não voltou para casa. Quando o telefone tocou, no meio da noite, susto e contradição a tomaram: a Morte, mansa e suave, escrevia a tragédia final num ato único e sem volta.
| Débora Böttcher |
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